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SISTEMA LABAN – Trecho de palestra realizada no Condanca, Porto Alegre, Brasil 2001, por Regina Miranda, CMA

           Somos todos, conscientemente ou não, observadores de movimento e a ele respondemos intuitivamente. Por exemplo: Quando vemos uma pessoa que conhecemos com uma atitude que nos parece estranha, perguntamos: “- O que esta acontecendo com você?” Em geral, quando isso acontece, estamos respondendo a alguma mudança em seu gestual ou em sua postura corporal, que detectamos ao olhar. Sabemos também que uma voz que se modifica ao ler um discurso, uma perna que se move involuntariamente durante uma entrevista, um gesto recorrente  de morder o lábio, uma postura ou uma fala cujas qualidades não se modificam em circunstâncias diversas, formam o conjunto complexo corpo-verbal do ser humano.

            Se somos capazes de lembrar do que falamos há pouco, ou até do que falamos há muito tempo, o mesmo não acontece com o movimento. Se eu perguntasse agora qual a postura corporal anterior à deste momento, ou como foi seu  ultimo cumprimento, o máximo que você iria se lembrar é que usou a mão esquerda ou direita. Isso por que os cumprimentos são, em geral, uma espécie de assinatura de movimento, então sabemos se somos do tipo que cumprimenta com um abraço, ou se estendemos a mão. Raramente ouvirei sobre a distância entre uma pessoa e outra, qual a qualidade do abraço ou aperto de mão, se existiu ou não algum contato visual e, menos ainda, “como” o outro estava, a não ser que algo realmente fora do comum tenha acontecido, como, por exemplo, um aperto de mão forte demais, ou uma distancia corporal inusitada durante o abraço.

Desde cedo, somos constantemente treinados para o discurso verbal e para o que chamamos de “responsabilidade com a palavra”. Somos estimulados e ensinados a falar e escrever e apreciados caso consigamos desenvolver um estilo pessoal de escrita. O mesmo critério, no entanto, não se aplica ao movimento e, muitas vezes, quando falamos sobre experiência do ritmo da fala e dos padrões do corpo em movimento, ainda ouvimos o discurso de que “isso não se aprende” e que “o que importa e ser natural e não “ensaiado”. Perde-se então o hábito de observar a assinatura que existe em cada andar, em cada maneira de cumprimentar, falar e ouvir. Menos ainda, embora a ciência prove o contrário, se pensa os padrões corporais de movimento como uma forma de discurso inteligente/emocional.

Conhecer o movimento  é como conhecer a palavra e saber articula-lo é como saber falar e escrever. Da mesma maneira que ao possuirmos um rico vocabulário verbal temos a possibilidade de escolhermos a palavra adequada e de desenvolvermos nosso estilo pessoal, ao aumentar e articular nosso vocabulário de movimento, o percebemos em sua complexidade e encontrarmos o nosso jeito realmente único de ser em movimento. Uma experiencia que, em primeira instancia, visa o sujeito e suas relacoes com o ambiente externo-interno.

Mas, o que esta inscrito no movimento?

 Embora tenhamos “impressões” e “reações”, nossa interpretação e nossa “verdade” particular se encontra modificada por nossos mecanismos inconscientes, por nossas emoções e por nossa relação co o meio ambiente interno/externo. O que se aprende no Sistema Laban (também chamado de Analise Laban de Movimento) é a observar e identificar os componentes do discurso de movimento e suas articulações deslizantes; a questionar a própria interpretação para discriminar, na medida do possível,  as sensações das observações, e a expandir o conhecimento dos sinais de movimento em si e no outro, criando maior entendimento de si mesmo e do outro.

A abordagem LABAN é simultaneamente intuitiva, experimental e analítica: analítica, no sentido de que cada um é solicitado enquanto observador/ator; experimental porque, ate mesmo em situações onde o Analista Laban se encontra “apenas como observador”, o observador sabe que seu estar e sua perspectiva influenciam sua observação e modificam constantemente suas relações com o evento; e é também intuitiva, porque cada um é estimulado a confiar na experiência do momento que esta sendo vivido.

            O Sistema Laban foi originalmente desenvolvido pelo teórico de movimento, Rudolf Laban (1879- 1958), durante a primeira metade do sec XX e, desde então, vem se ampliando através de seus discípulos e sendo reconfigurado nos mais variados campos, tais como comunicação, negócios, estudos sociais e culturais, artes cênicas e terapias.

Gostaria de esclarecer que a abordagem Laban nao visa “mudar” um comportamento e tampouco pretende “fazer a pessoa se mover”, ou fazer alguém se mover de uma determinada maneira – aquelas maneiras consideradas como “certas”. O que procuramos enfatizar e que cada um de nós esta constantemente em movimento, e na maior parte das vezes, sem qualquer conhecimento do que se move, ou de “como” o os padrões de movimento acontecem e do que são indicadores.

Uma caracteristica marcante da abordagem LABAN é não ser – julgadora. Sabedores de como o passar do tempo modifica nossos critérios de julgamento, circunscritos a nossa vivencia pessoal e ao nosso meio sócio-cultural,  evitamos generalizações sobre o que é correto ou incorreto e procuramos abrir o discurso, atuarmos com uma mentalidade inclusiva e experimentar as multiplicidades e complexidades do sujeito. Assim, o Sistema Laban nao se constituiria  numa “escola”, no que este termo nos reporta ao ensino de padrões  corporais pré-estabelecidos, mas, certamente, se constitui numa “escola de pensamento”, que concebe o movimento como um processo dinâmico de mudanças contínuas, sempre presente em todas as atividades do ser humano. LABAN observou que estas mudanças, embora contínuas, tendem a seguir uma determinada ordem e a se organizar em determinados padrões individuais, numa espécie de partitura musical do corpo, que permite um acesso criativo ao objeto de observação e múltiplas interpretações teórico/corporais.

Enquanto  Analistas Laban de Movimento, o que nos atrai ee explorar os territórios do corpo em movimento, observar as variedades que existem no discurso, promover múltiplas leituras sobre os diversos padrões de movimento, diminuir os ruidos que impedem a entendimento do “discurso total” (palavras em movimento), expandir o vocabulário e reapresentar o individuo em sua complexidade e “espontaneidade” trabalhadas, ou seja, no que poderíamos chamar de seu “estilo” pessoal.

 

Notas:

1*  Laban chamou o que traduzo por “Esforco” de “Effort”, que vem sendo tambem ser traduzido por Expressividade, como por exemplo, prefere Ciane Fernandes.

2* I.Bartenieff- notas de classe,1994-95, Programa de Certificado em Laban Movement Analysis, LIMS,NY


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Regina Miranda, artista, coreóloga e analista Laban é Presidente do Centro Laban – RJ; Presidente do Conselho Diretor & Diretora de Arte e Cultura do Laban/Bartenieff Institute of Movement Studies, de Nova Iorque. Graduata pela SUNY Empire State college em Teoria da Dança, recebeu seu titulo de Analista Laban em 1975 pelo Laban/Bartenieff Institute. É mestranda em Ciência de Liderança, pela GCU - Ken Blanchard School of Business. Regina é autora de O Movimento Expressivo ( Funarte, 1979),  Corpo-Espaco: Aspectos de uma geo-filosofia do corpo em movimento (Editora 7Letras, 2008) e de Laban Lead: Liderança como Arte (Centro Laban-Rio, 2008).

 

 

 

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